Escrevo este post em São Petesburgo, ou Petesburgo, ou ainda, como os russos carinhosamente se referem À antiga capital, Piter. Eu gostei da última opção.
O panorama da cidade é radicalmente distinto do de Moscou. Moscou tem um plano urbanístico que se baseia em sucessivas circunferências concêntricas, que gravitam em torno do Kremlin. Em outras palavras, existem vários anéis que partem do centro da cidade, e o mais distante deles está mais ou menos 100 km do centro. No final das contas, o que se tem é uma cidade em forma de teia de aranha.
«Piter» é outra história. A cidade é bem nova — até Curitiba é mais velha! Piter foi fundada no começo do século XVIII (fez 300 anos há pouco tempo) pelo czar Pedro, o Grande. Vocês brasileiros conhecem bem essa história, a cidade foi fundada para ser a capital do país. Só que olha só como cada povo pensa diferente: Brasília foi construída como forma de povoar o interior do país, de tornar a capital menos sucetível a ataques externos, já que o Rio era considerado meio vulnerável. Os russos tinham outra coisa em mente e a mudança de capital foi em sentido inverso: do interior para o litoral. Na verdade, queriam fazer da Rússia um país mais europeu, ou senão aproximá-la da Europa, e para isso, resolveram construir um novo palácio imperial voltado para a Europa, e soma-se a isso o fato de que ter uma capital litorânea seria mais fácil para desenvolver uma marinha respeitável (a coqueluche da época).
E desde sua fundação até 1917 foi a capital do Império Russo. Sim, foi aqui, e não em Moscou, a residênica e o posto de trabalho dos czares como Catarina, a Grande, Alexandre I e II, Nicolau I e sua versão II, o retorno.
Foi aqui também onde viveram (ou viveram durante parte de suas vidas) escritores hiperconhecidos (é assim que se escreve na nova grafia??) como Dostoyévskiy, Lêrmontov, e o escritor preferido entre 15 em cada 10 russos, Púshkin. Na vedade ele passou grande parte de sua vida num lugar perto daqui, que se chama «tsárskoe syelo» (algo que em português soaria como vila imperial ou qualquer coisa do tipo). Se der tempo, vou conhecer esse lugar.
Também considero seriamente uma breve viagem até o país da Nokia, do Papai Noel, da Tarja Turunen, de Raikonnen em da vodka Finlandia. Acho que não preciso ser mais direto pra dizer aonde quero ir, né? Daqui até Helsinki são 6 horas de trem (ou seja, bem mais perto do que Moscou).
Curiosidades de Piter:
Dias de inverno: o sol aparece às 9:30 e se põe um pouco antes das 16:00. No verão me disseram que às 2 da manhã ainda tem sol.
Inverno propriamente dito: preocupante. Culpa do aquecimento global: ontem saí sem cachecol e não passei frio. Também não vejo nada de neve nas ruas (em Moscou pelo contrário, neve em todos os lugares, e especialmente uma espéciel de barro nojento congelado, que só derrete quando você chega no calor do lar).
Museus: aqui como em Moscou um passeio bem típico é ir a algum museu. Reza a lenda que é possível visitar um museu diferente em cada dia durante um ano. Loucura, loucura.
Pogulyat' — verbo mais do que imprescindível em russo. Significa, em claro português, «dar uma volta». Frequentemente pronunciado inclusive nos dias mais fresquinhos — leia-se -20 graus ou menos.
Me falaram para não beber a água da torneira daqui, pois a água apresenta excesso de metais pesados, utilizados para combater micróbios e outros bichinhos nocivos que nadam nos encanamentos locais.
Por falar em ambiente, Piter foi construída sobre uma região pantanosa — vulgo brejo. E para construir a cidade foram necessários milhares de trabalhadores, muitos dos quais pereceram durante a construção da nova capital Brasíli..., digo, Piter.
Por falar em nome, acho que dificilmente uma outra cidade no mundo sofreu tantas mudanças de nome como esta onde lhes escrevo. No começo era São Petesburgo. Aí no começo do século XX deu a louco no povo daqui e resolveram mudar para Petrogrado. Depois veio a revolução russa, e com ela a União Soviética e um novo nome, Leningrado. Assim ficou até 1991, quando do fim do comunismo e da própria URSS, mudaram para o nome mais antigo, São Petesburgo. Bela escolha.
Algumas pessoas apelidaram S. Petesburgo como a «Veneza do norte», em função dos inúmeros canais e ilhotas que existem por aqui. A principal diferênça em relação à Veneza original é que aqui, especialmente no inverno, é impossível navegar, já que tudo congela. Mas vale a pena dar uma caminhada ao longo dos canais. Pode ser romântico...
Rivalidades Moscou x São Petesburgo. Foi eu dizer «estou vindo de Moscou, estou morando lá» para que os locais esbugalassem os olhos e perguntarem sonoramente «PRA QUÊ????». Eles acham que Moscou é uma cidade muito caótica, as pessoas são frias e ríspidas, trânsito, confusão, barulho, só pensam em trabalhar, stress, enquanto que aqui as pessoas são mais tranquilas, mais humana, o trânsito em bem menos descomplicado, sabem aproveitar a vida, perto do mar... acho que eu já ouvi esse debate em algum lugar, não sei onde... só falotu dizer que o petersburguense tem a ginga, tem o samba no pé e tals.
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