terça-feira, 23 de dezembro de 2008

С Рождеством!!

Não, eu não sumi, estou aqui, mais vivo do que nunca.

Natal

Amanhã é véspera de NATAL! Como o tempo passa rápido, não?
Aqui o Natal é um pouco diferente daqui. Explico tudo. Quem não gosta de história e cultura pode pular quatro parágrafos.

A data mais importante nesta época por aqui, sem dúvidas, é o ano-novo, comemorado no mesmo dia do que aí (com a óbvia diferença de apenas algumas horas, hehe). A única coisa é que no ano novo daqui tradicionalmente se faz a troca de presentes, parecido com o Natal dos demais cristãos.

O dia 25 de dezembro, para a grande maioria dos russos, não significa muita coisa. Na verdade, praticamente nada, dado que nem mesmo é considerado feriado, e as repartições públicas, tanto na véspera como no Natal propriamente dito, funcionam normalmente (se é que a gente pode falar em «normalmente» nesses dias turbulentos de crise, ainda mais em um país como a Rússia).

Então, quando é que se comemora o Natal? Na tradição ortodoxa russa, no dia 7 de janeiro. Por que a diferença? Porque até a revolução comunista a Rússia tinha um calendário próprio, que diferia do calendário «nosso» por cerca de duas semanas. Esse calendário de duas semanas mais atrasado era utilizado durante o Império Russo e em outros países ortodoxos. O nosso calendário, o gregoriano, surgiu depois de uma reforma no século XVI que fez com que o tempo «pulasse» duas semanas, mudança essa que não foi acatada nos países de cristianimso ortodoxo.

O calendário oficial russo foi mudado em 1918, mas a tradição se manteve (ou melhor, mais ou menos, em razão do comunismo, mas isso aí já é outro assunto). Assim, todos as festividades religiosas apresentam um «atraso» de aproximadamente duas semanas em relação aos nossos dias.
A Igreja Ortodoxa daqui continua a utilizar o calendário antigo, e nessas Igrejas se comemora o ano-novo no dia 13 de janeiro. Mas nesse dia o feriado é facultativo, ao que tudo indica.

Mesmo amanha não sendo Natal «oficial» por aqui, devo fazer uma reunião aqui em casa com o pessoal daqui. Afinal, passar o Natal em branco ninguém merece. Minha cultura em primeiro lugar. :)

Falando de calendário, me lembrei das viagens que planejo fazer durante janeiro. Com pequenas mudanças. Se antes pensava ir para a Ásia Central — leia-se Cazaquistão e Uzbequistão — hoje meu foco é para oeste. Não tão oeste assim. Depois de conhecer outras cidades russas (Petesburgo, especialmente), planejo ir conhecer a Polônia (Cracóvia e Varsóvia), a República Tcheca (Praga) e depois a Alemanha (Berlim, e se der, Leipzig). Na volta penso passar pela Ucrânia.

Por que essa mudança: por dois motivos. Primeiro, e principalmente, as exigências formais de visto para cada país da Ásia Central. Não é muito difícil obter o visto, mas o procedimento exige certo tempo e $$. Segundo: o inverno especialmente no Norte, está bem pouco convidativo. Fosse ainda há dois meses, poderia ir para lá com temperaturas bem mais amenas. Fica pra depois. Uma pena, pois me parece que o custo de vida por lá é bem baixo (bem mais do que no Brasil).

FELIZ NATAL! С РОЖДЕСТВОМ!

sexta-feira, 5 de dezembro de 2008

Nem tudo são rosas

Todos sabem, a vida é feita de altos e baixos, momentos de felicidade e outros de tristeza, vantagens e desvantagens, alegrias e desapontamentos, SPFC e Corinthians, e outras antíteses.

O fato é Moskva city, assim como qualquer outro lugar do mundo, por melhor que pareça ser, não raro já me revelou surpresas não muito agradáveis. Algumas realmente graves.

Comecemos pelo sistema financeiro deles, eufemisticamente e PTmente falando, ainda se encontra em um longo processo de estruturação e de transição sistêmica. Mas prefiro ser direto ao ponto e falar: eles são atrasadérrimos! Para pagar qualquer coisa, inclusive internet, a faculdade em si e outros serviços, a gente precisa ir ao banco. E o que é mais "cômodo": sem utilizar caixa eletrônico. Basta preencher um formulário (pra quem não sabe russo seria um "divertimento"). Débito em conta corrente ou faturamento eletrônico soariam como palavrões. Isso sem falar do humor de algumas "tias" atendentes, constantemente em estado de TPM múltiplo. Se você for contratar algum serviço como internet, pede-se paciência.

Clima. Não, não é o que vocês estão pensando. Seria mais do que lógico associarmos "clima da Rússia" com as palavras "neve, nevascas, frio de lascar, temperaturas (bem) abaixo de 0, pessoas usando trenó e bebendo vodka pra se esquentar". Ainda mais em dezembro, fim do outono e com o inverno batendo na porta e pedindo licença para entrar. Não é o caso. Sim, já nevou aqui, e já fiz bonecos de neve e participei de guerrinhas de bolas de neve. Mas Inês já está morta, digo, a neve derreteu e a temperatura hoje, aos 5 de dezembro, está em torno de 7°C. Mesma temperatura já fez em SP neste ano, e também no fim do outono! Fato: a grama aqui está mais verde e mais viva do que nunca do que a de Brasília em tempos de seca.

Face-control. Palavra originária do inglês, mas extensivamente usada em russo. Significa controle de entrada e saída de pessoas mediante rápida e direta análise do aspecto físico do indivíduo. A técnica é largamente empregada em casas noturnas, bares, restaurantes e até mesmo em algumas lojas, eu já vi. Quem faz o face-control pode barrar a entrada utilizando um estranho critério de dress-code: se você estiver vestindo calça social, camisa, e tênis, você corre o risco de ser impedido de entrar em determinados ambientes. Outra coisa, muito mais grave, pessoas aparentemente não-russas (com aparência do Cáucaso, isto é, cabelos e olhos escuros, ou mesmo os africanos, raríssimos por sinal), podem ser barrados também, por melhor que estejam vestidos. Triste realidade. Entretanto, há sinais de que, com a crise financeira em franca ascensão, que reduz drasticamente a disposição a consumir/ pagar dos russos, a prática do face-control vêm abrandando. Assim, mesmo com um sapato bem encardido, talvez você poderá entrar na balada (mas os seguranças vão te olhar bem torto).

Antes que me esqueça, um ponto crítico. O tema é: diskriminatsiya ou rasizm, palavras em russo bem entendíveis. É certo que a grande maioria dos russos rejeita e deplora os ataques contra as minórias étnicas, como no caso da família tadjique (pai, mãe e a filha de apenas 8 anos!), brutalmente assassinada em S. Petesburgo há uns 4 anos. Contudo, após as guerras lá na Tchetchenia e com os atentados terroristas, ganhou força o nacionalismo extremista e a aversão aos povos do Cáucaso em geral e a outras etnias. Algo parecido com o anti-semitismo na Europa ou a racismo no Brasil. Mas diferentemente do Brasil, o racismo não é muito "velado" por aqui.
Não lembro bem onde li, mas foi feita uma estatística para medir o nível de "tolerância" na sociedade russa, com dados nada animadores. Algo em torno de 10% dos entrevistados eram a favor da explusão de todos os tchetchenos de Moscou, e 12% afirmou categoricamente que odeia dessa etnia. Um tanto altos esses valores, não? Mais sobre tolerância: sobre a idéia de "Russia apenas para os russos étnicos", apenas um terço respondeu que era totalmente contra. Vale lembrar que a Rússia é habitada por inúmeras etnias, cada qual com sua língua, seus costumes e tradições, dentre as quais a etnia russa é uma delas, e corresponde, ainda à maioria da população (mais ou menos 75%, mas devido à baixa natalidade, esse proporção está se reduzindo), em que pese as políticas públicas para estimular as russas para terem mais filhos.