Todos sabem, a vida é feita de altos e baixos, momentos de felicidade e outros de tristeza, vantagens e desvantagens, alegrias e desapontamentos, SPFC e Corinthians, e outras antíteses.
O fato é Moskva city, assim como qualquer outro lugar do mundo, por melhor que pareça ser, não raro já me revelou surpresas não muito agradáveis. Algumas realmente graves.
Comecemos pelo sistema financeiro deles, eufemisticamente e PTmente falando, ainda se encontra em um longo processo de estruturação e de transição sistêmica. Mas prefiro ser direto ao ponto e falar: eles são atrasadérrimos! Para pagar qualquer coisa, inclusive internet, a faculdade em si e outros serviços, a gente precisa ir ao banco. E o que é mais "cômodo": sem utilizar caixa eletrônico. Basta preencher um formulário (pra quem não sabe russo seria um "divertimento"). Débito em conta corrente ou faturamento eletrônico soariam como palavrões. Isso sem falar do humor de algumas "tias" atendentes, constantemente em estado de TPM múltiplo. Se você for contratar algum serviço como internet, pede-se paciência.
Clima. Não, não é o que vocês estão pensando. Seria mais do que lógico associarmos "clima da Rússia" com as palavras "neve, nevascas, frio de lascar, temperaturas (bem) abaixo de 0, pessoas usando trenó e bebendo vodka pra se esquentar". Ainda mais em dezembro, fim do outono e com o inverno batendo na porta e pedindo licença para entrar. Não é o caso. Sim, já nevou aqui, e já fiz bonecos de neve e participei de guerrinhas de bolas de neve. Mas Inês já está morta, digo, a neve derreteu e a temperatura hoje, aos 5 de dezembro, está em torno de 7°C. Mesma temperatura já fez em SP neste ano, e também no fim do outono! Fato: a grama aqui está mais verde e mais viva do que nunca do que a de Brasília em tempos de seca.
Face-control. Palavra originária do inglês, mas extensivamente usada em russo. Significa controle de entrada e saída de pessoas mediante rápida e direta análise do aspecto físico do indivíduo. A técnica é largamente empregada em casas noturnas, bares, restaurantes e até mesmo em algumas lojas, eu já vi. Quem faz o face-control pode barrar a entrada utilizando um estranho critério de dress-code: se você estiver vestindo calça social, camisa, e tênis, você corre o risco de ser impedido de entrar em determinados ambientes. Outra coisa, muito mais grave, pessoas aparentemente não-russas (com aparência do Cáucaso, isto é, cabelos e olhos escuros, ou mesmo os africanos, raríssimos por sinal), podem ser barrados também, por melhor que estejam vestidos. Triste realidade. Entretanto, há sinais de que, com a crise financeira em franca ascensão, que reduz drasticamente a disposição a consumir/ pagar dos russos, a prática do face-control vêm abrandando. Assim, mesmo com um sapato bem encardido, talvez você poderá entrar na balada (mas os seguranças vão te olhar bem torto).
Antes que me esqueça, um ponto crítico. O tema é: diskriminatsiya ou rasizm, palavras em russo bem entendíveis. É certo que a grande maioria dos russos rejeita e deplora os ataques contra as minórias étnicas, como no caso da família tadjique (pai, mãe e a filha de apenas 8 anos!), brutalmente assassinada em S. Petesburgo há uns 4 anos. Contudo, após as guerras lá na Tchetchenia e com os atentados terroristas, ganhou força o nacionalismo extremista e a aversão aos povos do Cáucaso em geral e a outras etnias. Algo parecido com o anti-semitismo na Europa ou a racismo no Brasil. Mas diferentemente do Brasil, o racismo não é muito "velado" por aqui.
Não lembro bem onde li, mas foi feita uma estatística para medir o nível de "tolerância" na sociedade russa, com dados nada animadores. Algo em torno de 10% dos entrevistados eram a favor da explusão de todos os tchetchenos de Moscou, e 12% afirmou categoricamente que odeia dessa etnia. Um tanto altos esses valores, não? Mais sobre tolerância: sobre a idéia de "Russia apenas para os russos étnicos", apenas um terço respondeu que era totalmente contra. Vale lembrar que a Rússia é habitada por inúmeras etnias, cada qual com sua língua, seus costumes e tradições, dentre as quais a etnia russa é uma delas, e corresponde, ainda à maioria da população (mais ou menos 75%, mas devido à baixa natalidade, esse proporção está se reduzindo), em que pese as políticas públicas para estimular as russas para terem mais filhos.
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